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Lost, a série que mudou a TV, por Gabriela Zimmermann

Séries de TV existem aos montes, todos os anos estreiam dezenas delas. Sejam elas boas, ótimas, extraordinárias ou ruins, elas estão lá. ...


Séries de TV existem aos montes, todos os anos estreiam dezenas delas. Sejam elas boas, ótimas, extraordinárias ou ruins, elas estão lá. Cada um tem sua favorita, alguma que o marcou ou até mesmo o mudou. Mas existem aquelas que causam marcas e mudanças não só em seus adeptos como na história da TV e do entretenimento como um todo. Lost foi provavelmente a principal delas.

Em 22 de Setembro de 2004 estreou na rede de TV americana ABC uma série que já vinha causando um certo burburinho há alguns meses. Mas, apesar de tais burburinhos, ninguém podia imaginar o que essa tal série viria a causar. Essa série era Lost, e ela causou uma grande revolução no que se diz respeito a fazer e assistir televisão. Passar quarenta minutos semanais em frente à TV assistindo os novos episódios já não bastava, era preciso pesquisar sobre os temas abordados, ler os livros citados, discutir teorias com outros fãs. Até as músicas que tocavam (não da trilha sonora oficial, as ocasionais) traziam alguma pista. E logo produtores e emissora precisaram criar conteúdos extras para atender a sede de informação daqueles fãs tão curiosos.

Essa revolução chegou ao nível mundial. Fãs estrangeiros já não suportavam esperar pela estreia de novos episódios em seu país. Surgiram os streamings, downloads de episódios e grupos de legendas. Qualquer barreira desaparecia quando fãs do mundo inteiro se reuniam em fóruns online para discutir o que estava acontecendo, para assim tentar entender o que havia acontecido e deduzir o que iria acontecer. Sim, Lost foi o pai, a mãe e o irmão da interação TV-internet.

Mas talvez nada disso tivesse acontecido sem um enredo brilhante e personagens humanamente reais. Claro que as inúmeras referências históricas, filosóficas, científicas, literárias, musicais e até a cultura pop ajudaram muito. Mas pense um pouquinho, você teria perdido todas aquelas noites de sono criando teorias caso não tivesse se identificado com os desejos e aflições daqueles personagens? Teria investido horas pesquisando sobre assuntos que talvez antes não lhe despertassem curiosidade caso não conseguisse se imaginar naquelas situações? Creio que não. Pois desde então muitas séries tentam copiar a fórmula sem, no entanto, alcançar metade do sucesso que Lost obteve nessa tarefa. Parecem passar tanto tempo se preocupando com detalhes que supõe que tornarão a trama interessante e esquecem de se preocupar com personagens e enredo que sejam críveis.

Mas o que a trama de Lost tem de tão especial pra causar esse rebuliço todo? São inúmeras coisas, começando pelos personagens. Eles são pessoas normais, como eu e você. De diversas idades, etnias e classes sociais. Completos estranhos que de repente precisaram se unir para enfrentar uma série de obstáculos. Sobreviver a uma queda de avião foi apenas o primeiro. Não houve fome ou sede naquela ilha onde o voo 815 da Oceanic Airlines caiu. Mas houve medo e luta. Duvida e fé. Trevas e luz. Frieza e compaixão. Coincidências e destinos. Erros e escolhas. Ódio e amor. E ainda os fantasmas do passado que seriam enfrentados para que pudessem seguir adiante. Uma história sobre pessoas, feita por pessoas para pessoas.

Grande elenco, grandes personagens
Em poucos episódios você percebe que o título Lost é mais metafórico do que literal. Pois mais do que perdidos naquela ilha tropical, os personagens estão perdidos em suas próprias vidas. Vemos isso através dos flashbacks que gradualmente mostram quem são aquelas pessoas, o que fizeram e o que as levou até ali. Pessoas sim, pois logo você se vê tão envolvido com tudo que acaba por se esquecer de que são apenas personagens. Passam a ser pessoas que fazem parte da sua vida. Isso se deve ao roteiro perfeitamente elaborado e conduzido, e ao elenco incrivelmente capacitado.

Não quero me aprofundar muito sobre o enredo e o caráter dos personagens, pois não quero dar spoilers àqueles que porventura ainda não viram Lost. E aqueles que viram sabem que qualquer pequena informação pode virar um grande spoiler, e que o bom mesmo é descobrir quem são essas pessoas com o desenvolver da trama. Então, você que ainda não viu Lost, assista por essas pessoas que são tão iguais a mim e a você. Garanto que você vai se identificar com alguém, amar um outro e odiar um terceiro pra depois ver que não podia estar mais enganado sobre ele. Vai conseguir se colocar nas mesmas situações, e talvez até ver que faria as mesmas escolhas.

Não posso passar sem dizer como Lost chegou até mim e me mudou. Não acompanhei os primeiros burburinhos e nem via os comentários em massa na web. Apenas tinha visto algumas propagandas na Globo e meu tio tinha feito um comentário, não como indicação, mas um simples comentário. Isso já no primeiro semestre de 2006, quase dois anos depois da estreia oficial de Lost. Como se toda aquela revolução estivesse acontecendo em um universo totalmente diferente e distante do meu. E só em 07 de Novembro de 2006 é que tudo começou pra mim. Teria sido um dia como outro qualquer se não fosse pelo fato de minha mãe voltar do trabalho trazendo na bolsa um DVD contendo os dez primeiros episódios de Lost, que fora emprestado por um colega.

Naquela mesma noite, minha mãe, meu pai e eu começamos a assistir. Em menos de uma semana precisávamos de mais. Maratonamos as duas primeiras temporadas na base do “só mais um”, da 3ª à 5ª vimos pela TV a cabo, e só na 6ª é que pude baixar. Não tinha uma internet decente antes disso. Minha mãe mãe abandonou na 2ª temporada, eu e meu pai fomos até o fim. Mas o fato é que em poucos episódios eu já não me contentava em apenar assistir, e então começou um ritual diário que envolvia pesquisas e teorias. (Está vendo porque eu disse que sem a trama bem elaborada a revolução não viria?) Embora isso só tenha ficado sério mesmo em 2007, quando terminei e 3ª temporada e fiquei em dia. (Eu não queria spoilers!) Pesquisava dos temas abordados ao elenco. Ah o elenco... No início eram totais desconhecidos pra mim, e em pouquíssimo tempo eu já os amava. A maioria entrou pra minha lista de atores e atrizes favoritos.

Amava mais ainda aqueles momentos de tensão e total desconhecimento do que aconteceria, mesclados a ótimos momentos de alívio cômico. Até dos momentos de romance eu gostava. Não soavam melosos ou forçados, eram reais e admiráveis. Uma verdadeira forma de mostrar que sem amor, seja de que tipo for, não somos ninguém. E não queria que nada daquilo acabasse. Mas o fim chegaria uma hora. Tudo que começa precisa ter um final, assim é a vida.

O fim veio e com ele muita polêmica. Natural, quando se trata de um fenômeno mundial é impossível criar um desfecho que agrade a todos. Mas é triste ver pessoas falando que o final foi ruim como se fosse uma verdade inquestionável. O final é mais do que tudo uma questão de interpretação, compreensão e opinião. Particularmente, eu gostei. Não só foi emocionante e surpreendente como também bastante condizente com tudo que Lost sempre quis passar sobre o ser humano. Para mim, foi o final de jornada que aquelas pessoas que tanto amei mereciam. Pra você que ainda não viu, apenas assista e tire suas próprias conclusões.

Enfim, Lost me mudou de duas formas. Me deixou com um senso mais observador e crítico, aguçou ainda mais minha curiosidade. Passei a notar com mais facilidade os detalhes, a avaliar melhor o que está ao meu redor e não me contentar apenas com o que dizem. Mas a pesquisar e formar meus próprios conceitos. E claro, me mudou com todas as suas lições. Aprendi que nada nem ninguém é uma coisa só. Que as pessoas mudam. Que ou aprendemos a viver juntos ou morreremos sozinhos. Que a dor é necessária, mas o amor também. Que as constantes e as variáveis são indispensáveis. Que fé nunca é demais. Que ninguém pode dizer o que eu não posso fazer. E por aí vai.

E preciso mencionar as mentes brilhantes por trás de Lost: JJ Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse. Um trio que fez um trabalho magnífico, e por causa deles que comecei a me importar também com os nomes na produção. E não posso esquecer o deus da trilha sonora, Michael Giacchino. As emoções não seriam as mesmas sem suas composições. Até hoje é impossível não chorar e sentir um aperto no peito ao ouvir Life and Death.

Reassisti a série completa duas vezes desde seu fim em 23 de Maio de 2010. Mas perdi a conta de quantas vezes vi e esmiucei cada episódio. Cada vez uma experiência única e inesquecível. Sempre sob uma perspectiva diferente e com novos horizontes desbravados. Então termino dizendo pra você que já viu, não tenha medo de fazer essa jornada outra vez e veja de novo. E pra você que ainda não viu, está esperando o quê?





Guest Post Este texto foi escrito por um brilhante e ilustre autor convidado, e faz parte de uma série de posts sobre as séries favoritas e os danos que elas causam no coração da gente.

Guest
Gabriela Zimmermann é e será amante de Lost por toda a eternidade, série que é também a responsável por transformá-la em seriadora viciada. É catarinense, Beatlemaníaca, e apaixonada por cães. Curte principalmente sci fi, mas também adora fantasia, ação e comédia. Atualmente está apaixonada por Hawaii 5-0, colabora com o Canal de Séries, e tem um blog próprio, o Constantes e Variáveis. No Twitter atende por @GabiCZ.
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Postar um comentário Comentários via BLOGGER (4) Comentários via DISQUS

  1. Querida Gabriela,

    Já falei que esse texto ficou maravilhoso, mas não custa nada repetir, né? De verdade, eu não esperava que ele me "pegasse" desse jeito. Eu gosto de Lost, e posso dizer que até a amo. Logo, fiquei coberta de saudades dela depois que terminei de ler aqui.

    Fiquei admirada de ver sua paixão pela série. Eu sempre quis ler o relato de alguém que acompanhou Lost em seu tempo e é amante dela, desse jeitinho aí. ADOREI a forma que você tratou o que "aprendeu" com Lost, especialmente porque eu também adotei a máxima "Don't tell me what I can't do" pra minha vida. Vira e mexe eu a repito :smile:

    Fiquei encantada em como você lembra até as datas relacionadas à Lost! Não resta dúvida para mais ninguém que você é a fã número 1 :shy:

    MUITO OBRIGADA por aceitar meu convite, Gabriela.
    E como eu já te falei antes, sempre que quiser fazer um Guest eu terei a maior honra de publicar.
    Você escreve maravilhosamente bem e a paixão que transcende de suas palavras me faz sentir maravilhosamente bem :smile:

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    Respostas
    1. Obrigada Arlane! Com tantos elogios fico até sem jeito, mas fico feliz que tenha gostado tanto assim. O que fiz foi apenas tentar colocar em palavras o que Lost fez comigo, conosco. E acho que "Don't tell me what I can't do" virou um lema pra muita gente. Todos aprendemos muito com Lost. :)

      Eu que agradeço o convite. E já que as portas estão abertas, voltarei outras vezes sim. ^^

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  2. Não é ruim. Muitos se queixam sobre o ritmo desta série, mas não podemos negar é que o sucesso era indiscutível, as primeiras temporadas foram os mais recentes de luxo, mas perdeu o contato, eu acho que foi uma excelente série, mas abusou temporadas. Pela forma como seus criadores têm feito o suficiente bons empregos, por exemplo, Damon Lindelof criado com Tom Perrotta The Leftovers que está agora em sua segunda temporada, uma série baseada em um romance sombrio. Enquanto isso J.J. Abrams continua com excelentes e divertidas propostas. Em suma, os criadores de “Lost” são gênios, eu amo o seu trabalho.

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  3. Tinha assistido até a quinta temporada e comecei em 2006, quando minha irmã trouxe uns CDs com os primeiros episódios gravados. Até então eu ouvia o burburinho aqui e ali mas nunca tinha dado muita atenção. Mas quando comecei a assistir fiquei fissurado. Só parei no final da quinta temporada, e, apesar de achar que a partir da quarta a série teve uma queda no nível, ainda assim considerava uma das melhores coisas que eu havia assistido. Acabei me esquecendo da sexta temporada quando saiu. Sugeri a uma namorada minha que assistisse e acompanhei os primeiros episódios com ela, sempre na expectativa de que ela sentisse o mesmo entusiasmo que e se deslumbrasse com os personagens e acontecimentos conforme a história avançasse. E ela estava gostando muito. Mas nosso namoro terminou e eu parei de assistir de novo, até que recentemente quis apenas mostrar pra minha sobrinha na Netflix e acabei fazendo uma maratona, do primeiro até o último dos 121 episódios. Assisti tudo em menos de um mês e curti mais do que das outras vezes. Inclusive achei fantástico final, tão criticado. Lost é uma série muito rica, cheia de personagens cativantes e repletas de metáforas para a vida e realmente é possível extrair lições e exemplos dela. Acho que Lost é a minha série favorita. Parabéns pelo post! Eu me identifiquei demais com o que você escreveu.

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