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My Mad Fat Diary - 1ª Temporada

É engraçado como uma coisa tão aleatória e fútil como uma série pode falar tanto com a gente. Na verdade, sempre achei que qualquer obra ...


É engraçado como uma coisa tão aleatória e fútil como uma série pode falar tanto com a gente. Na verdade, sempre achei que qualquer obra de arte pode tocar a alma de qualquer um. Só depende de qual história é contada e de como ela é contada. Com My Mad Fat Diary eu já me identifiquei à primeira vista.

Atenção: spoilers.

Foi como assistir uma versão gorda de mim. Meus medos, meus pensamento idiotas, meus sentimentos que nunca contarei para ninguém, minha cabeça totalmente confusa. Olhei pra tela e pensei: "poxa, existe alguém mais louca do que eu!". Porém, nada disso me faz especial.

Eu sei que muitas pessoas se identificam com Rae (Sharon Rooney). Sei que dia após dia, muitos de nós tentamos nos encaixar na turma, ser vistos como normais. Do meu ponto de vista, a maioria das pessoas é como Rae. Dúvidas sobre o futuro, sobre como lidar com o agora, sobre como se sobressair... tudo isso povoa a mente de todo mundo, em algum momento da vida.

Raríssimas são as pessoas "muito bem resolvidas". Se elas existem? Certamente que sim. Mas tem muito lobo vestido de cordeiro por aí. Tem muita gente como Chloe (Jodie Comer), que vive de belas fotos postadas no Facebook e no Instagram. São sorridentes, são lindos, andam sobre a Terra como se fossem donos. Mas não passam de capa para um eterno e infinito vazio.

Já conheci várias Chloes da vida. Já fui amiga de Chloes da vida. Já chamei uma de melhor amiga e vivi sob a sombra dela, assim como Rae vivia sob a de Chloe. Não tem coisa pior. Viver achando que alguém é tão superior a você e que você ainda precisa de sua amizade... é sufocante. E em My Mad Fat Diary a gente vê isso cena após cena. Não existe amizade entre Rae e Chloe. Existe uma que se acha superior e outra que se acha inferior.

O interessante é que a Superior fica o tempo todo diminuindo a Inferior, puxando ela para baixo. Ela não deveria se preocupar, afinal, o que tanto ela poderia temer? Mas Chloe não para. Desde expor a virgindade de Rae até ficar chateada quando esta enfim arruma um pretendente, Chloe ficou. É uma relação do tipo sapo-escorpião.

Quando Chloe precisou, ela nem sequer precisou pedir. Rae abriu mão do show que tanto queria e foi oferecer seu ombro à amiga. Quando foi a vez desta retribuir o favor, quem disse que ela quis? Quem disse que ela teve a sensibilidade que a situação pedia?

A licença poética que a série tirou no final, quando as duas fizeram as pazes, não é o mesmo que acontece na vida. Na prática, não se muda uma relação tão destrutiva com um simples abraço. Para começar, Chloe estava chateada por algo tremendamente estúpido, e tudo o que ela conseguiu fazer (como sempre) foi ordenar que Rae ficasse "longe de seus amigos". Tipo: oi, vadia? Quem você pensa que é?

DETESTEI a forma como Rae reagiu à isso. Ela aceitou o condicionamento sem lutar por nada, e dane-se se ela achou que a "amiga" tinha lido seu diário. Esta era a hora de ela repetir a frase de Kester (Ian Hart): ou você me aceita como eu sou ou foda-se!

Mas, bem, se não fazemos isso na vida real, não é da ficção que podemos exigir.


MMFD também toca em outros pontos frágeis: homossexualidade e família.

Família é um bicho que te faz sofrer pela ausência e pela presença. Vide Rae, que não conseguia lidar com o abandono do pai, e não conseguia se sincronizar com a mãe. E eu ri demais ao ver, com o decorrer da série, que a descrição inicial dada à mãe (Claire Rushbrook) da protagonista não passava de birra de uma adolescente muito, muito birrenta.

Nenhum pai nem mãe é perfeito. Acho uma baboseira sem fim essa ideia de que "coração de mãe só tem amor para dar", porque no final das contas todo mundo é apenas ser humano, com ódio, maldade, amor e bondade para oferecer. Mas, no caso da mãe de Rae, vemos que ela se esforça para entender a filha como pode. E Rae pode muito bem ganhar um troféu de menina complicada, o que leva sua progenitora a ganhar um troféu de mãe do ano... pois além de ter uma filha MUITO difícil, ela ainda a cria sozinha. Lidando e escondendo o abandono do pai e tudo. Fácil? Não mesmo.

Como cereja do bolo veio Karim (Bamshad Abedi-Amin), a aventura amorosa com cara de roubada do século (quem não tinha certeza de que ele era roubada?). Foi LINDO a série colocar esse plot como algo que deu certo, até porque no mundo sombrio de MMFD um pouco de felicidade e sorte certamente não faz mal à ninguém. A sortuda da vez foi a mãe que, fazendo valer seu prêmio de mamãe do ano, conseguiu manejar Rae e ainda viver uma grande história de amor. Eita mulher!

A forma como trouxeram a homossexualidade à tona foi bem legal. Quer dizer... o resultado foi a amizade entre Archie (Dan Cohen) e Rae, então, apesar do começo ter sido amargo, pode-se dizer que o fim foi doce. Eu teria gostado mais se explorassem melhor a cumplicidade entre eles, afinal, um segredo como este traz, sim, um profundo sentimento de confiança. Mas aguardo maiores momentos de Archie e Rae na segunda temporada.

Finn (Nico Mirallegro, quase um Hunter Parrish britânico), meu deus, é a personalização da utopia. Não que não existam garotos fantásticos como ele. Existem pessoas fantásticas, tanto garotos quanto garotas. O problema é encontrá-los. O problema é ser um deles! Nossa querida Rae teve a sorte de ser a garota fantástica da vida de Finn, e de tê-lo como seu garoto fantástico. Certamente que no comecinho não deu para notar que ele gostava dela, pois parecia justamente o contrário. Mas, no momento em que ela relatava seu encontro com Archie, deu para perceber aquela pontinha de ciúme na cara dele. Coisa linda. Ele se revelou, meio que tropeçando, no cavalheiro que chega (de mansinho) no cavalo branco. Maldita Rae sortuda.

Tenho que ressaltar também que a série foi sábia quanto ao momento de fazer Finn ser notado. No início ele nem era destacado, mas, a partir do timing certo, ele passou a ser visto como mais do que um membro da turma de Rae. Parece que só aí as câmeras começaram a filmá-lo. E nem passava pela minha cabeça que ele seria o par romântico dela!

Chop (Jordan Murphy) e Izzy (Ciara Baxendale) são a coisa mais linda da turma. Ele, o animal festeiro. Ela, a meiguice em forma de gente. Eles juntos... a combinação mais fofa do universo. Os dois são aquele casal que todo mundo deve ter como amigo, porque nunca vai faltar festa nem riso na sua casa. E como tal, também são indispensáveis em MMFD. Mal posso esperar para ver como será a vida dos pombinhos (finalmente!) juntos.

A série trata, afinal, de nossas diferenças e de como elas nos incomodam. Rachel 'Rae' Earl, uma garota de 16 anos, vivendo sua adolescência nos anos 90, nem suporta se olhar no espelho por se achar feia e gorda. Não consegue imaginar que alguém é capaz de amá-la porque ela é feia e gorda. "Feia" e "gorda" são apenas dois dos muitos adjetivos que nós temos em mente quando nos olhamos no espelho. Dificilmente alguém age como Kester que, mesmo com aquelas orelhas de abano, se diz perfeito. É tudo uma questão de aceitação de si e de mandar os padrões de beleza sociais tomarem naquele lugar.

Rae chegou ao ponto de, por este e outros motivos, tentar se matar e acabar numa ala do hospital psiquiátrico. Acabou sendo"extrema" tal abordagem, até porque se todo mundo com o mesmo pensamento fosse pelo mesmo caminho... tava lascado. Mas ela conseguiu se reerguer. Com recaídas, mas conseguiu. Porém, como ficou claro, não existe um feliz para sempre. A maior representação disso é Tix (Sophie Wright).

A conclusão que My Mad Fat Diary quer mostrar é que existem os bons momentos e os momentos de contar de 1 até 10. Existem seres humanos que se questionam o tempo todo. Que não são tão livres assim. Alguns são mais fortes, outros nem tanto. No final das contas, todo mundo é um pouco de Rae.


P.S.1: My Mad Fat Diary tem só 6 episódios. Se você ainda não viu, pare de perder tempo e veja logo.

P.S.2: A segunda temporada tem previsão de estreia em fevereiro de 2014 e terá 8 episódios.

P.S.3: A série é baseada no livro My Fat, Mad Teenage Diary (2007), escrito pela (real) escritora e radialista Rae Earl.

O melhor: A reconciliação entre Rae e Kester / A reconciliação entre Rae e sua mãe.
O pior: Chloe ter saído ilesa.
Melhor quote: Eu te amo mais do que tudo. [Mãe para Rae]
Nota: 10
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