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Sons of Anarchy: motos, tiros, adrenalina e Shakespeare, por Israel Duarte

Pense na tragédia familiar de Hamlet, misturada com Família Soprano , adicionando uma boa dose de adrenalina. Pode-se dizer que Sons Of A...


Pense na tragédia familiar de Hamlet, misturada com Família Soprano, adicionando uma boa dose de adrenalina. Pode-se dizer que Sons Of Anarchy, criação de Kurt Sutter (The Shield), é mais ou menos isso. Com uma mistura afiada de drama, ação, suspense e humor negro, a série conta a história do clube de motociclistas fora da lei Sons Of Anarchy, que tem sua sede em Charming, uma cidade fictícia da Califórnia. Clay Morrow (Ron Perlman) é o presidente, e seu afilhado, Jax Teller (Charlie Hunnam), o vice-presidente e protagonista.

A trama explora muito bem os laços de irmandade que unem o grupo que, apesar de composto só por homens, tem nas mulheres, principalmente nas esposas dos membros (“old ladies”, como são comumente chamadas), grandes pilares de sustentação. A mais importante delas é Gemma (Katey Sagal), esposa de Clay. Respeitada e adorada por todos, ela é a grande figura materna do clube. A atriz, que é casada com Sutter, ganhou o Globo de Ouro em 2011 pelo papel. Outra figura feminina que logo ganha força é Tara (Maggie Siff), antiga namorada de Jax na adolescência, que voltou à cidade para trabalhar no hospital St. Thomas. Tara volta a se aproximar da família Teller ao cuidar do pequeno Abel, filho de Jax, que teve um parto prematuro após sua mãe e ex-mulher de Jax, Wendy, sofrer uma overdose.

Com o nascimento do seu filho e o achado de um manuscrito escrito por seu pai, John Teller, Jax começa a refletir sobre o caminho que o Clube tomou. Essa “epifania” e o descobrimento de vários segredos do passado (como a verdade sobre a morte do pai), é o que move a trama da série, colocando as ideologias de Jax e Clay em constante colisão. Enquanto Clay visa apenas o lado financeiro, que envolve principalmente o tráfico de armas, o vice-presidente fará de tudo para tirar a SAMCRO (sigla de Sons of Anarchy Motocycle Redwood Original, nome oficial do clube) da ilegalidade e tentar resolver os problemas e conflitos do clube sem (ou com o mínimo de) violência — muitas vezes passando por cima de Clay. E conflito é o que não falta. Desde gangues da Califórnia (como os mexicanos dos Mayans), passando por uma organização de separatistas brancos, até os irlandeses do IRA (boa parte da 3ª temporada se passa na Irlanda do Norte). Isso tudo sem falar nas organizações federais, que, volta e meia, colocam o clube na mira.

Esses conflitos internos e externos ameaçam não só o Clube como organização, mas a unidade do grupo, que parece enfraquecer cada vez mais ao longo das seis temporadas — a sexta acabou de terminar e a sétima será a última.

Algo que o roteiro de Sutter e seus colaboradores sempre frisa é que os Sons podem ser bandidos, mas não vilões. Por mais ilegal que seja a forma como eles ganham a vida, eles sempre tentam ajudar o povo de sua cidade e se revoltam com injustiças tanto quanto qualquer cidadão honesto.

Outra característica dos personagens que é muito bem composta pelo texto, é serem multidimensionais e terem várias fases durante a série, assim como a relação entre eles, que muda por consequência de suas próprias mudanças ou acontecimentos na trama. Essa volubilidade de aspectos individual e coletivo humaniza os personagens, e nos aproxima ainda mais deles. Dentre todas as mudanças, naturalmente a que mais impressiona é a de Jax. De idealista e pacificador, ele vai se deixando contaminar pelo mundo de caos e violência em que vive e se torna uma pessoa sedenta por vingança e disposta a tudo para chegar a seus interesses, por melhores que sejam (pelo menos, na maioria das vezes). Jax evolui não apenas como líder, apto a tomar decisões que poucos seriam capazes de tomar, mas como personagem, se tornando alguém com moral dúbia, capaz de tomar as mais bondosas atitudes como as mais violentas. A sua grande mudança é construída com primor no decorrer das seis temporadas, tornando-se algo bem crível. Assim como a de Tara, que, para defender seus filhos, também será capaz de atitudes bem duvidosas.

A série frequentemente mostra o quão sujo os personagens estão dispostos a jogar para chegar aos seus objetivos — objetivos que, se não sempre bons, ao menos são compreensíveis dentro daquele mundo. O que dificulta o julgamento do público: será que um bom fim justifica um meio tão sujo ou sangrento?

Clay e Jax
A trilha sonora também é um dos elementos que merecem menção. As músicas, “garimpadas“ em sua maioria pelo próprio Sutter (o compositor Bob Thiele, que criou a música de abertura, também ajuda), casam perfeitamente seja com sequências de perseguições ou de momentos mais densos, de drama. E não só a melodia. As letras das músicas parecem ser escritas precisamente para os momentos em que são usadas. A trilha sonora de Sons Of Anarchy exerce um papel fundamental na narrativa, em vez de secundário, como na maioria das séries.

Com tantas qualidades — que vão desde o design de produção, passando pelo figurino, até a montagem —, é difícil compreender o porquê de Sons Of Anarchy ser tão ignorada em premiações e pela crítica especializada (que de vez em quando lembra, e elogia). No ar desde 2008, a série só recebeu duas indicações a prêmios importantes: melhor música-tema original, no Emmy, em 2009; e a já citada indicação (e vitória) de Katey Sagal ao Globo de Ouro, como Melhor Atriz em série dramática, 2011. Charlie Hunnam (que recentemente protagonizou Círculo de Fogo), por exemplo, faz um trabalho excelente, dando toda a credibilidade que a complexidade de seu personagem precisa. A falta de reconhecimento já chegou a irritar Kurt Sutter, que, usando seu senso de humor negro — e, por vezes, controverso —, reclamou publicamente numa das vezes que a série foi esnobada no Emmy.

Entretanto, sabemos que esse tipo de injustiça acontece e não foi a primeira vez, e nem será a última, que uma série sofrerá com isso — vide Community, que vive sendo eclipsada por séries como The Big Bang Theory. A base de fãs de Sons Of Anarchy é muito fiel e, embora não tão grande quanto as de séries mais conhecidas da TV, continua crescendo. A prova disso é que na sua sexta temporada, SoA foi o terceiro drama mais visto da TV paga americana, ficando atrás apenas de The Walking Dead e Breaking Bad, além de ser a série mais vista do canal FX, quebrando, temporada após temporada, vários recordes de audiência.

Aqui no Brasil, Sons Of Anarchy é transmitida também pelo FX. Porém, o canal parece não dar a mínima para a série, que deixou de passar na 2ª temporada. Desde então não houve novidades sobre a transmissão. As opções para quem quer conhecer a produção é comprar o box nacional de DVD, que tem até a 3ª temporada, importar de lojas estrangeiras (como a Amazon UK), ou recorrer ao famoso download.

Seja qual for a opção, você não se arrependerá de começar a ver a série. Desde o início, SoA é uma incrível jornada em alta velocidade sobre segredos, traições, alianças, amor, ódio, mas, sobretudo, família. O conceito de família está na essência, no cerne do Clube. E a história contada por Kurt Sutter é exatamente o que, e até onde, as pessoas vão para protegê-la.



Guest Post Este texto foi escrito por um brilhante e ilustre autor convidado, e faz parte de uma série de posts sobre as séries favoritas e os danos que elas causam no coração da gente.

Guest
O Autor
Israel Duarte  tem 24 anos e é do Rio de Janeiro. Gosta de escrever e discutir principalmente sobre cinema. Música, futebol e política também são de seu interesse. Publica seus ótimos escritos no blog isduarte.blogspot.com.br, e no Twitter pode ser encontrado no perfil @Isduarte.
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Postar um comentário Comentários via BLOGGER (8) Comentários via DISQUS

  1. Israel, que honra ter você por aqui :smile:
    É tão bom ter conhecido alguém que compartilha da mesma paixão por Sons of Anarchy... durante muito tempo eu nem tinha alguém pra comentar sobre a série. Ainda bem que você chegou!

    Nem preciso dizer, né. Seu texto está perfeito, como sempre. Sons of Anarchy é pura poesia, e você conseguiu transmitir a rima dela.

    O que mais me intriga no universo de SOA é a falta de premiações à série, como foi citado no texto. É revoltante, pra dizer o mínimo. Por mim, Kurt Sutter podia dar muito mais piti por ver sua obra ser desmerecida desse jeito. NÃO entendo e nunca entenderei porque tamanho descaso.

    Mas sorte nossa que vemos SOA, né? Eu realmente sou grata por, nessa vida de seriadora, ter conhecido os Filhos da Anarquia. Amo cada pedaço dela. Cada personagem, cada trama, cada loucura de Kurt. Nem sempre saio inteira depois de ver um episódio...mas amo mesmo assim :shy:

    Israel, MUITO OBRIGADA. Obrigada mesmo.
    O Episódio em Foco está para sempre ao seu dispor caso queira abrilhantá-lo com outros Guests Posts.
    Será sempre minha honra :smile:

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    1. Eu que agradeço tanto apreço!
      Cada episódio da série também mexe comigo e sou apaixonado por esses personagens maravilhosos criados pelo Sutter.
      Eu também não conheço muitos fãs da série. Nós temos que nos unir! No twitter, como fã MESMO, já tem vc e o Patrick. Até a sétima temporada a gente vai aumentando o grupo! Hehehe

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  2. Ótimo post, Israel, você vende muito bem sua ideia. Evidência disso: estou baixando Community.

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    1. Hahaha. Muito obrigado! Community é muito bom (mas acabei empacando na terceira temporada).

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  3. Já iria ver a série por insistência de um certo amigo escritor, mas depois de um texto tão bem escrito e bem apresentado( o que não é novidade para quem conhece o mesmo), não tive como não ver. Já estou na Segunda Temporada. E espero ler mais textos desse cera ai em cima.

    Ps: e pra quem não pescou, o amigo em questão é o próprio Israel, que obviamente me obrigou a escrever aqui...

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    1. Mentira! Não obriguei, nada! No máximo fiquei insistindo pra que lesse o texto! Hahaha

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    2. Ah, mas uma chantagenzinha de vez em quando não faz mal à ninguém hehe :smile:
      Obrigada por ter vindo (mesmo na marra) e comentado, Felipe!
      Sinta-se à vontade para vir sem ser na marra também :noprob:

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